Postado em 18/02/2026
avanço dos importados
Custos logísticos e estruturais explicam avanço dos importados no Brasil
A crescente presença de produtos importados no mercado brasileiro, em detrimento da produção nacional, não é fruto de um único fator, mas do acúmulo de distorções estruturais que afetam a competitividade da indústria brasileira. A análise é do economista Otto Nogami, que aponta um conjunto de elementos econômicos e produtivos que ajudam a explicar por que os produtos estrangeiros vêm “atropelando” o produto nacional. O primeiro ponto destacado diz respeito à assimetria tributária, especialmente no que envolve os custos dos insumos e da folha de pagamentos. A carga tributária incidente sobre o trabalho no Brasil é elevada e impacta diretamente os custos de produção. Esse peso tributário reduz a margem de competitividade da indústria nacional, sobretudo quando comparada a países que possuem sistemas tributários mais equilibrados ou fortemente voltados ao estímulo à produção. A esse fator soma-se o alto custo da energia. Indústrias que dependem intensivamente de eletricidade e de gases industriais enfrentam tarifas entre as mais caras do mundo. Esse encarecimento da matriz energética eleva significativamente o custo final dos produtos fabricados no país, criando uma desvantagem adicional frente aos concorrentes estrangeiros. Outro aspecto relevante é o custo logístico e de armazenagem. O Brasil convive com gargalos históricos de infraestrutura, que se refletem em ineficiências no transporte de cargas. Estudos mostram que, em determinadas situações, é mais barato enviar uma mercadoria do porto de Santos até a China do que transportá-la do interior do estado de São Paulo para a região Nordeste. Esse dado ilustra a gravidade do problema, agravado pelo fato de a matriz de transporte brasileira ser predominantemente rodoviária, mais cara e menos eficiente. Nogami também chama atenção para a obsolescência do capital físico da indústria nacional. Muitas empresas brasileiras ainda operam com tecnologias próximas às de 2010, enquanto concorrentes asiáticos já estão plenamente inseridos na lógica da chamada Indústria 4.0. Essa defasagem tecnológica compromete a escala de produção, reduz a produtividade e, inevitavelmente, eleva os custos industriais.
A perda de produtividade tem efeito direto sobre o preço final dos produtos. Com custos mais altos, o produto nacional perde competitividade no próprio mercado interno, abrindo espaço para o avanço dos importados, que chegam ao consumidor final com preços mais atrativos. O câmbio aparece como mais um elemento determinante nesse processo. Com a taxa de câmbio recuando de patamares próximos a R$ 5,50 para algo em torno de R$ 5,20, o produto estrangeiro torna-se ainda mais barato no mercado brasileiro. Essa valorização do real beneficia alguns setores, mas representa um duro golpe para a indústria nacional, que passa a disputar espaço com concorrentes externos em condições desfavoráveis. Há ainda a percepção de que a valorização cambial reduz o custo dos insumos importados. No entanto, para muitas indústrias, esses insumos representam apenas uma pequena parcela da estrutura de custos. Assim, eventuais ganhos com importações mais baratas não compensam os demais custos, que continuam sendo pagos em reais e permanecem elevados. Por fim, o economista destaca que o câmbio valorizado cria uma oportunidade para empresas asiáticas escoarem excedentes de produção, acumulados especialmente em função da guerra tarifária promovida pelos Estados Unidos. Esses produtos chegam ao Brasil a preços altamente competitivos, pressionando ainda mais a indústria local. Diante desse cenário, a questão central que se impõe é como reverter esse processo. A resposta passa por uma combinação de reformas estruturais, modernização produtiva, revisão da carga tributária, investimentos em infraestrutura e uma estratégia cambial e industrial mais alinhada com a realidade competitiva global. Sem isso, a tendência é de continuidade da perda de espaço da produção nacional frente aos produtos importados.
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Fonte: Custos logísticos e estruturais explicam avanço dos importados no Brasil