Conflitos globais e o Brasil no novo cenário internacional

Postado em 16/07/2025


Conflitos globais e o Brasil no novo cenário internacional

Conflitos globais

Conflitos globais e o Brasil no novo cenário internacional

Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, instabilidade econômica e mudanças nas dinâmicas de comércio global, as pequenas empresas enfrentam desafios cada vez mais complexos — mas também oportunidades estratégicas. Entre guerras, disputas comerciais e transformações nas cadeias produtivas, temas como segurança alimentar, reindustrialização e exportações de maior valor agregado passam a compor o centro do debate sobre o futuro da economia brasileira. Para discutir esse novo panorama global, o convidado da semana do programa A Hora e a Vez da Pequena Empresa é Vinícius Rodrigues Vieira, especialista em Relações Internacionais, que trouxe uma leitura ampla e precisa sobre como o Brasil pode agir diante das tensões internacionais e dos movimentos de reconfiguração econômica mundial. Vinícius iniciou sua análise contextualizando a atual conjuntura com o exemplo da tensão entre Irã e Israel, que envolve o temor nuclear e a constante interferência dos Estados Unidos. Ainda que o ataque israelense e a retaliação americana tenham demonstrado força, o programa nuclear iraniano continua em curso, revelando a fragilidade das soluções unilaterais. Nesse ambiente conturbado, o especialista ressalta que o Brasil possui uma janela de oportunidade para fortalecer sua produção nacional e impulsionar o crescimento econômico — desde que consiga mobilizar governo, sociedade civil e empreendedores em uma estratégia voltada para a diversificação de mercados e produtos com maior valor agregado, como alimentos industrializados, por exemplo. Essa diversificação, segundo ele, é uma questão de sobrevivência econômica. Continuar exportando apenas commodities in natura para um número restrito de parceiros — como a China — expõe o país a riscos desnecessários. Ainda que a economia chinesa não dê sinais concretos de colapso, sua desaceleração reforça o alerta: não se pode colocar todos os ovos na mesma cesta. O Brasil possui plenas condições de ampliar suas frentes comerciais e investir na agregação de valor, sobretudo em setores estratégicos, como os de terras raras — metais essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia — nos quais o país tem reservas significativas. A proposta, neste ponto, é estabelecer parcerias inteligentes, como um possível diálogo com a China, que domina o refino desses minerais, para que o Brasil passe a ocupar um papel mais relevante na cadeia global de valor. Mesmo diante de conflitos diretos e guerras em curso, como o embate prolongado entre Rússia e Ucrânia, Vieira afirma que o mundo não vive apenas um estado de guerra, mas um período de múltiplas instabilidades. A resposta global a esses eventos, no entanto, tem reacendido antigos comportamentos, como o fortalecimento de arsenais militares. Um exemplo emblemático é a Alemanha, que estuda retomar o alistamento obrigatório após décadas de pacifismo institucionalizado. Esse tipo de mudança revela o grau de incerteza que paira sobre o sistema internacional. Dentro desse quadro, o especialista aponta que vivemos, na verdade, um retorno ao “velho normal”. O período de relativa estabilidade global, iniciado com o fim da Guerra Fria e a queda da União Soviética, parece ter sido uma exceção histórica. A atual polarização entre potências — como Estados Unidos, China e Rússia — reacende tensões que estavam latentes e desafia a lógica do comércio global livre e cooperativo. A China, por sua vez, apesar de não estar envolvida diretamente em conflitos armados, segue no centro das atenções, principalmente devido à tensão com Taiwan — uma ilha cuja importância estratégica se dá, entre outros fatores, por sua liderança na produção de microchips. Qualquer movimentação nesse sentido poderá causar impactos profundos e imediatos em toda a economia global. Essa perspectiva de instabilidade tem levado países a reverem suas estratégias de integração internacional. Segundo Vinícius, desde a pandemia da COVID-19, o mundo vive um processo de desglobalização silenciosa, em que os custos logísticos, o protecionismo crescente e as guerras comerciais alteram profundamente a lógica das cadeias produtivas. O Brasil sentiu esse impacto diretamente com a imposição de tarifas ao aço e ao alumínio durante o governo Trump, e o mundo como um todo passa por um movimento de reconfiguração que encarece produtos e dificulta o acesso a bens essenciais. O resultado mais perceptível desse movimento é uma inflação de caráter global, e não apenas localizada. Vinícius lembra que o barateamento de produtos nas últimas décadas se deveu, em grande parte, à ascensão da China como centro fabril mundial. Agora, com a reorganização dessas cadeias, o consumidor tende a pagar mais caro por alimentos, roupas e eletrônicos — o que limita o poder de compra e, por consequência, desacelera outras atividades econômicas. Diante disso, o desafio para países em desenvolvimento é ainda maior. Ao ser questionado sobre os possíveis caminhos para o Brasil diante desse cenário, o especialista foi enfático: a reindustrialização precisa voltar ao centro da agenda econômica. E isso não se resume às grandes indústrias. Pequenos e médios negócios têm papel crucial no abastecimento de mercados regionais e internacionais — especialmente se focarem em nichos específicos e produtos de maior valor agregado. Diversificar parcerias comerciais é um passo essencial, mirando oportunidades na Ásia, África, América Latina e Sudeste Asiático, em vez de apostar todas as fichas em um único destino exportador. Por fim, ao abordar a segurança alimentar — tema que ganha destaque em tempos de incerteza global —, Vinícius trouxe dados de um relatório recente da ONU, segundo o qual apenas a Guiana, entre os países das Américas, teria capacidade total de alimentar sua população em cenário de isolamento. Isso mostra como mesmo grandes potências são dependentes de importações. O Brasil, com sua ampla capacidade agrícola, pode não apenas abastecer sua população, mas também tornar-se peça-chave no tabuleiro da segurança alimentar mundial — desde que saiba transformar sua vocação produtiva em estratégia geopolítica. Com um olhar atento às transformações globais e uma leitura estratégica das capacidades brasileiras, Vinícius Rodrigues Vieira convida à reflexão e à ação. O futuro da pequena empresa, da indústria nacional e da economia como um todo depende, mais do que nunca, da capacidade de antecipar movimentos, diversificar caminhos e agir com inteligência diante das oportunidades — mesmo quando elas surgem em meio ao caos. Assista:

 

Coluna do Simpi: Sanção através de tarifas gera grande tensão entre Brasil e EUA - News Rondônia

Fonte: Conflitos globais e o Brasil no novo cenário internacional